3 de novembro de 2010

Para ser

Meu coração está pequenino...

Talvez apertado defina melhor.

......................................................

Respiro fundo e sou consumida!

Sua voz entra pelos meus poros!

A tristeza dá até prazer!

Sua música me atropela!

Você me faz transcender!

É emocionante!

É lindo!

É mágico!

Como eu te amo!

Como eu me amo!








14 de outubro de 2010

(Re)conhecer


Triste.
As lágrimas molham o rosto.
Chove, chove mesmo!
Chove bastante!
Agora, olhe no espelho!
Olhe bem nos seus olhos!
Que coisa feia!
Veja as lágrimas que molham seu rosto!
Olhe seus olhos vermelhos!
Olhe!
Está com pena de si?
Não se reconhece?





10 de agosto de 2010

Poema em linha reta

          Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
            Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irresponsavelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos!


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos



20 de julho de 2010

Filosofia, psicanálise, cinema e religião: uma reflexão sobre o filme Anticristo de Lars Von Trier




Depois de assistir ao genial filme “Anticristo”, dirigido por Lars Von Trier, com os atores Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg, fiquei pensando em todos os símbolos que ele traz e, principalmente, na questão do lugar ocupado pelo homem e pela mulher na história da humanidade. E não consegui deixar de pensar sobre a relação deste lugar e todas estas histórias de assassinatos femininos que vemos estampadas nos jornais brasileiros nos últimos dias, mas que, infelizmente, sempre aconteceram aqui e em todo lugar. Através do filme, me pareceu que todo o imaginário cultural que trata da concepção do significado do que é a mulher e do que é o homem, e da relação entre eles, tem origem no mito do pecado original e, claro, do uso que se fez dele durante a história. Pensar o mito, aqui, como idéia fundadora do conceito.
O enredo do filme é a história de um casal, cujos personagens não tem nome próprio, e da morte do seu filho, durante uma transa dos dois. A Mulher entra em depressão por se sentir culpada, num estado de luto opressor e o Homem, um psicanalista, resolve tratá-la. Decidem viajar para uma cabana que fica em uma densa floresta, batizada de Éden, uma referência explícita o mito do pecado original. A partir daí, os conflitos ganham proporções inimagináveis. Numa atmosfera visual semelhante à de um sonho, ou melhor, a um pesadelo, os personagens expõem seus maiores medos e angústias, até que passam, com agressões físicas, a revidar um no outro, suas frustrações e raivas.  É  um  filme  fantástico,  em  que nada  está ali  por  acaso.   Tudo tem um propósito e significado. Uma narrativa densa que oferece elementos  para uma  análise psicanalítica fabulosa. Sob este olhar, existe uma bela crítica escrita pelo Pablo Villaça que vale a pena: http://www.cinemaemcena.com.br/Ficha_filme.aspxid_critica=7510&id_filme=6251&aba=critica).
Mas a minha intenção é levantar uma análise considerando o mito da origem e do pecado original. O título do filme é o mesmo dado pelo filósofo Nietzsche ao seu livro que trata da sua crítica ao cristianismo. Talvez a melhor tradução para o titulo seja Anticristão e não Anticristo. Nietzsche chega a afirmar que “Deus está morto”. No filme de Lars temos a frase “Freud está morto”. Uma ironia ao insinuar que a explicação, mais que na psicanálise, estaria no arquétipo do mito da criação tão defendido e difundido através das religiões. Está tão incorporado que mal nos damos conta da sua impregnação no inconsciente coletivo. E como determina o comportamento e as relações humanas.
De acordo com o mito. Eva come a maça, o fruto proibido árvore da ciência da, do conhecimento do bem e do mal, criada por Deus, e a oferece a Adão que acaba comendo também. A partir daí, os dois são expulsos do paraíso e, de acordo com a tradição cristã, toda a humanidade fica privada da perfeição e da perspectiva de vida infindável. Surgiria para os cristãos aqui a noção de pecado herdado - tendência inata de pecar - e a necessidade de um resgate da humanidade condenada à morte. Após comerem o fruto proibido, Adão e Eva tiveram ciência de que andavam nus e, por isso, esconderam-se ao notar a presença de Deus no Jardim do Éden. Deus os expulsou do jardim e os deu roupas de pele animal.
Devido ao fato de Eva, além de ter sido feita da costela de Adão, ainda o ofereceu o fruto da árvore proibida, justificou-se por longos anos no Cristianismo e no Judaísmo uma suposta inferioridade da mulher. E ainda se justifica, apesar de, muitas vezes, não ser explicitamente declarada. Principalmente porque, após o pecado original, Deus disse que a mulher seria governada pelo homem.
O mito reforça e é reforçado pela relação da mulher e do homem com o seu desejo. Lacan afirma que a mulher se interessa pelo objeto como objeto do desejo do homem, enquanto o objeto fálico só chega à mulher em segundo lugar, e na medida em que desempenha um papel no desejo do outro. A mulher então ocupa o lugar de objeto de desejo do homem, como na metáfora feita por ele do mito de Adão e Eva, em que a mulher é feita da costela do Outro. A mulher encarna o objeto perdido retirado do próprio homem, sendo o objeto de posse dele. O homem precisa afirmar sua virilidade e sustenta a posse de sinais fálicos no intuito de “parecer ter” o falo, pois, para o homem, não basta ser, ele sente a necessidade de provar que é homem.
Assim como Pascal que, segundo Nietzsche, era um homem intelectualmente forte, mas que foi corrompido pelo ensino do cristianismo do pecado original, se encontra todo o imaginário coletivo. A humanidade, segundo Nietzsche, foi corrompida e os seus valores mais altos também. Começa aí a determinação do lugar do homem e da mulher. O poder sempre foi dado ao homem e se contestado, se acha no “direito” de eliminar, exterminar aquele que o contesta. A mulher carrega o sentimento de culpa pelo pecado original. Assim está no filme que, pra mim, é uma espécie de retrato da realidade do inconsciente, mais precisamente, do inconsciente coletivo, onde estão os mais profundos e complexos sentimentos humanos.
Toda a narrativa é desenvolvida a partir do ponto de vista da mulher. A personagem de Charlotte, cada vez mais decepcionada e furiosa com a insistência do marido em analisá-la e decifrá-la, ainda se torturada por seu sentimento de culpa, como mãe e como representante do sexo feminino. Assume aí, o lugar da condenação dada por Deus quando expulsa do paraíso. Durante todo o filme o personagem masculino que, me parece ocupar o lugar de Deus, do poder, em suas imposições e condenações, através de suas análises, vai mostrando a ela que todo o medo e toda a culpa foram construídos pelo seu próprio comportamento. No sótão da cabana, ele encontra estudos para a tese dela, fotos de caça às bruxas, sobre o genocídio feminino e um caderno repleto de artigos e notas sobre temas misóginos, no qual repara uma escrita frenética e ilegível. Ele a revela que, durante os estudos de sua tese, ela passa a ver o caráter feminino como sendo inerente ao mal e condenado a ele.
Mostrando a ela suas falhas, é como se ele fosse o Deus da punição. Ela se revolta e o ataca, tira a roupa, deita sobre ele. Depois, esmaga seus testículos com um bloco de madeira. Ele fica inconsciente e ela o masturba até que ele goza e ejacula sangue. A fim de impedi-lo de fugir, ela perfura sua perna e pendura uma pesada pedra de afiar para que ele não se mova e fuja, jogando fora a chave usada para apertar o parafuso que prende a pedra. Depois que ele consegue fugir e se esconder, mesmo com a pedra pendurada na perna, ela se arrepende e acaba o levando novamente até a cabana. Neste meio, ela relembra a cena da morte do filho e se dá conta de ter o visto subindo na janela, quando transava. Ela, então, pega uma tesoura e corta o clitóris, num ato radical da autocastração. O homem consegue se soltar da pedra. Novamente ela se revolta contra ele e arremessa a tesoura que acerta as costas dele. Já no fim, ele pega a mulher pelo pescoço e a estrangula. Depois põe fogo no corpo dela. E vai embora da cabana. Na cena final, aparece ele andando pela floresta e várias mulheres com o rosto embaçado, caminhando também.
Podemos pensar no personagem feminino, lembrando o livro de Nietzsche, como sendo o Anticristo ou Anticristão, no sentido de tentar se por contrária ao mito do pegado original, que permeia toda da igreja cristã. Mesmo condenada ao pecado e se sentindo culpada, ela tenta se rebelar contra a esta imposição. O personagem masculino representa o homem que, durante toda a história da humanidade, ocupa o lugar do poder. Não é a toa que padres e sacerdotes são homens. O próprio substantivo Deus pertence ao gênero masculino.
O filme de Lars nos traz uma belíssima oportunidade de discutir os papéis do homem e da mulher, ainda mais diante de tanta violência. Notícias se espalham: casos Mércia, Elisa e tantos outros. O que pensar desta nota: "Máfias de narcotraficantes e gangues como a Mara Salvatrucha adotam a execução de mulheres como marca registrada. Apenas na Guatemala, o número de assassinatos desse tipo chegou a 534 em 2007.”
E desta: “Na América Central, porém, o que vem apresentando níveis epidêmicos é o número de assassinatos indiscriminados de mulheres por seus parceiros, parentes ou desconhecidos – o feminicídio. Segundo o estudo divulgado na semana passada, entre 2000 e 2007 os casos de genocídio feminino na Guatemala aumentaram 183%, em Honduras, 150% e em El Salvador, 111%. O aumento de crimes contra mulheres foi o dobro dos assassinatos de homens em todos esses países.
Pensemos sobre!

Mardê Lenny

2 de julho de 2010

A companheira - Luiz Tatit

Eu ia saindo, ela estava ali
no portão da frente
Ia até o bar, ela quis ir junto
"Tudo bem", eu disse
Ela ficou super contente
Falava bastante,
o que não faltava era assunto
Sempre ao meu lado,
não se afastava um segundo
Uma companheira que ia a fundo

Onde eu ia, ela ia
Onde olhava, ela estava
Quando eu ria, ela ria
Não falhava

No dia seguinte ela estava ali
no portão da frente
Ia trabalhar, ela quis ir junto
Avisei que lá o pessoal era muito exigente
Ela nem se abalou
"O que eu não souber eu pergunto"
E lançou na hora mais um argumento profundo
Iria comigo até o fim do mundo

Me esperava no portão
Me encontrava, dava a mão
Me chateava, sim ou não?
Não!

De repente a vida ganhou sentido
Companheira assim nunca tinha tido
O que fica sempre é uma coisa estranha
É companheira que não acompanha

Isso pra mim é felicidade
Achar alguém assim na cidade
Como uma letra pra melodia
Fica do lado, faz companhia

Pensava nisso quando ela ali
No portão da frente
me viu pensando, quis pensar junto
"Pensar é um ato tão particular do indivíduo"
E ela, na hora "particular, é? duvido"
E como de fato eu não tinha lá muita certeza
Entrei na dela, senti firmeza

Eu pensava até um ponto
Ela entrava sem confronto
Eu fazia o contraponto
E pronto

Pensar assim virou uma arte
Uma canção feita em parceria
Primeira parte, segunda parte
Volta o refrão e acabou a teoria

Pensamos muito por toda a tarde
Eu começava, ela prosseguia
Chegamos mesmo, modéstia à parte
a uma pequena filosofia

Foi nessa noite que bem ali
no portão da frente
Eu fiquei triste, ela ficou junto
E a melancolia foi tomando conta da gente
Desintegrados, éramos nada em conjunto
Quem nos olhava só via dois vagabundos
Andando assim meio moribundos

Eu tombava numa esquina
Ela caía por cima
Um coitado e uma dama
Dois na lama

Mas durou pouco, foi só uma noite
e felizmente
Eu sarei logo, ela sarou junto
E a euforia bateu em cheio na gente
Sentíamos ter toda felicidade do mundo
Olhava a cidade e achava a coisa mais linda
E ela achava mais linda ainda

Eu fazia uma poesia
ela lia, declamava
Qualquer coisa que eu escrevia
ela amava

Isso também durou só um dia
Chegou a noite acabou a alegria
Voltou a fria realidade
Aquela coisa bem na metade

Mas nunca a metade foi tão inteira
Uma medida que se supera
Metade ela era companheira
Outra metade, era eu que era

Nunca a metade foi tão inteira
Uma medida que se supera
Metade ela era companheira
Outra metade, era eu que era




1 de junho de 2010

Nome próprio

Pra ser
E não lembrar

Pra lembrar
E não ser

Pra não lembrar
E ser

Pra não lembrar
E não ser

Pra lembrar
E ser

Identidade!

Instante

Amarela luz

Entrando pela janela.

E abrindo os olhos!

Som pra ouvir

Entrando pela TV.

Embriagando a alma e a mente.

Sacudindo o ouvido!



Luz amarela

Invadindo a janela.

E cegando os olhos!

De repente: música!

Que existe no silêncio!

A palavra é imperfeita.

E a poesia não existe.

Somos palavra


EU

TENHO

MEDO

DE

MORDER

O

CAROÇO

DA

GOIABA!


Eu tenho medo de PALAVRA

Diversidade


Aonde você vai, menino?

Vou por aí, menina!

Menina, aonde você vai?

Menino, vou por aí!

Aonde você vai, menino?

Vou por ai, menino!

Menina, aonde você vai?

Menina, vou por aí!

11 de abril de 2010

Eu é que me perdi!
Eu ando assim...
Tô com uns sintomas muito estranhos. Uma clínica para a qual não encontro explicação em nenhum livro de medicina. Um aperto no peito e uma aflição, aqui no estômago, sabe!
E também uma vontade de viver tudo!
Tudo! Tudo! Tudo!
E ao mesmo tempo, de morrer trancado no quarto!
E uma falta de concentração que me atrapalha a vida, mas me leva a experimentar sensações que eu nunca vivi!
É um encantamento!
É isso!
Um encantamento!
Sem restrições!
Agora, isso tudo é rápido! Fica batendo aqui! Passando rápido!
É forte! É veloz! É urgente!
Uma vontade de chorar, de rir!
De tá junto o tempo todo!
O tempo todo! E mais nada!
O que será isso?
Isso que tem tomado a minha vida por inteiro, dia e noite?


Manuel Carlos

12 de março de 2010

Infindável existência

Escutar o disco

Desejo!

Chega ao final, procura outro e não acha.

Igual aquele, não.

Um dia de sol que se fecha.

E a chuva fina, lá fora, cai.

Escuta de novo.

O mesmo clima!

Único!

Possível para este dia.

Suspende-se.

E, por dentro,

Chora.
"Eu sempre me fascinei com o matemático indiano Srinivasa Ramanujan. Ele dizia que para resolver seus intricados teoremas era movido apenas pela beleza das equações.
Na poesia também é assim. É uma espécie de exercício do não-dizer, mas que nos dilata de beleza quando acabamos de ler um poema."


Hilda Hilst

9 de março de 2010

Vontade.

Começo.

Satisfação.

Fim.

Para a palavra: poesia!

Para o som: silêncio!

Para o desejo: coragem!

Para o amor: música!

O Céu (Mardê Lenny e Dartanhan Xavier)

Cada vez, um lugar.
Nas manhãs, encontrar.
Quero me achar sempre em seus braços,
E sempre tentar tocar o céu.
Olhe as flores, revelam a você,
Procure na noite, você pode ver.

Se eu sigo e se eu sonho,
E se fala que não está aqui,
Nem se tentar voar, fugir.
Eu buscarei tocar o céu.

O que importa se eu correr,
Não importa se eu perder,
Um dia qualquer,
Por você,

O que importa se eu fugir,
Não importa me perder,
Um dia qualquer,
Por você.

Venha para mim!
Quem tocará o céu,
Venha para mim!
Quem o tocará o céu,

Sem você! Só você!
Sem você! Ter você!
Sem você! Ser você!
Sem você! Com você!

Por você!






video

Agora

Não foste escolhida, apesar de desejar?

Masturba-se pra te encontrar

E se encontrar.

Gozo narciso sem fim

Corpo inundado de céu e de inferno.

Pensa no que foi.

No que será.

E no que poderia ter sido.

Não sei se encontrou a morte

Mas sente que a vida insiste.

Olha pra baixo e vê os pés.

Quem poderia supor!

Sequer imaginar!

Um dia desses encontrou com ele lá no alto

da serra.

E da noite!

Disseram oi!

E tchau...

Depois que fizeram amor.

- Deixe estar que um dia ela volta!

Ou não.

Quem quer saber!