20 de julho de 2010

Filosofia, psicanálise, cinema e religião: uma reflexão sobre o filme Anticristo de Lars Von Trier




Depois de assistir ao genial filme “Anticristo”, dirigido por Lars Von Trier, com os atores Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg, fiquei pensando em todos os símbolos que ele traz e, principalmente, na questão do lugar ocupado pelo homem e pela mulher na história da humanidade. E não consegui deixar de pensar sobre a relação deste lugar e todas estas histórias de assassinatos femininos que vemos estampadas nos jornais brasileiros nos últimos dias, mas que, infelizmente, sempre aconteceram aqui e em todo lugar. Através do filme, me pareceu que todo o imaginário cultural que trata da concepção do significado do que é a mulher e do que é o homem, e da relação entre eles, tem origem no mito do pecado original e, claro, do uso que se fez dele durante a história. Pensar o mito, aqui, como idéia fundadora do conceito.
O enredo do filme é a história de um casal, cujos personagens não tem nome próprio, e da morte do seu filho, durante uma transa dos dois. A Mulher entra em depressão por se sentir culpada, num estado de luto opressor e o Homem, um psicanalista, resolve tratá-la. Decidem viajar para uma cabana que fica em uma densa floresta, batizada de Éden, uma referência explícita o mito do pecado original. A partir daí, os conflitos ganham proporções inimagináveis. Numa atmosfera visual semelhante à de um sonho, ou melhor, a um pesadelo, os personagens expõem seus maiores medos e angústias, até que passam, com agressões físicas, a revidar um no outro, suas frustrações e raivas.  É  um  filme  fantástico,  em  que nada  está ali  por  acaso.   Tudo tem um propósito e significado. Uma narrativa densa que oferece elementos  para uma  análise psicanalítica fabulosa. Sob este olhar, existe uma bela crítica escrita pelo Pablo Villaça que vale a pena: http://www.cinemaemcena.com.br/Ficha_filme.aspxid_critica=7510&id_filme=6251&aba=critica).
Mas a minha intenção é levantar uma análise considerando o mito da origem e do pecado original. O título do filme é o mesmo dado pelo filósofo Nietzsche ao seu livro que trata da sua crítica ao cristianismo. Talvez a melhor tradução para o titulo seja Anticristão e não Anticristo. Nietzsche chega a afirmar que “Deus está morto”. No filme de Lars temos a frase “Freud está morto”. Uma ironia ao insinuar que a explicação, mais que na psicanálise, estaria no arquétipo do mito da criação tão defendido e difundido através das religiões. Está tão incorporado que mal nos damos conta da sua impregnação no inconsciente coletivo. E como determina o comportamento e as relações humanas.
De acordo com o mito. Eva come a maça, o fruto proibido árvore da ciência da, do conhecimento do bem e do mal, criada por Deus, e a oferece a Adão que acaba comendo também. A partir daí, os dois são expulsos do paraíso e, de acordo com a tradição cristã, toda a humanidade fica privada da perfeição e da perspectiva de vida infindável. Surgiria para os cristãos aqui a noção de pecado herdado - tendência inata de pecar - e a necessidade de um resgate da humanidade condenada à morte. Após comerem o fruto proibido, Adão e Eva tiveram ciência de que andavam nus e, por isso, esconderam-se ao notar a presença de Deus no Jardim do Éden. Deus os expulsou do jardim e os deu roupas de pele animal.
Devido ao fato de Eva, além de ter sido feita da costela de Adão, ainda o ofereceu o fruto da árvore proibida, justificou-se por longos anos no Cristianismo e no Judaísmo uma suposta inferioridade da mulher. E ainda se justifica, apesar de, muitas vezes, não ser explicitamente declarada. Principalmente porque, após o pecado original, Deus disse que a mulher seria governada pelo homem.
O mito reforça e é reforçado pela relação da mulher e do homem com o seu desejo. Lacan afirma que a mulher se interessa pelo objeto como objeto do desejo do homem, enquanto o objeto fálico só chega à mulher em segundo lugar, e na medida em que desempenha um papel no desejo do outro. A mulher então ocupa o lugar de objeto de desejo do homem, como na metáfora feita por ele do mito de Adão e Eva, em que a mulher é feita da costela do Outro. A mulher encarna o objeto perdido retirado do próprio homem, sendo o objeto de posse dele. O homem precisa afirmar sua virilidade e sustenta a posse de sinais fálicos no intuito de “parecer ter” o falo, pois, para o homem, não basta ser, ele sente a necessidade de provar que é homem.
Assim como Pascal que, segundo Nietzsche, era um homem intelectualmente forte, mas que foi corrompido pelo ensino do cristianismo do pecado original, se encontra todo o imaginário coletivo. A humanidade, segundo Nietzsche, foi corrompida e os seus valores mais altos também. Começa aí a determinação do lugar do homem e da mulher. O poder sempre foi dado ao homem e se contestado, se acha no “direito” de eliminar, exterminar aquele que o contesta. A mulher carrega o sentimento de culpa pelo pecado original. Assim está no filme que, pra mim, é uma espécie de retrato da realidade do inconsciente, mais precisamente, do inconsciente coletivo, onde estão os mais profundos e complexos sentimentos humanos.
Toda a narrativa é desenvolvida a partir do ponto de vista da mulher. A personagem de Charlotte, cada vez mais decepcionada e furiosa com a insistência do marido em analisá-la e decifrá-la, ainda se torturada por seu sentimento de culpa, como mãe e como representante do sexo feminino. Assume aí, o lugar da condenação dada por Deus quando expulsa do paraíso. Durante todo o filme o personagem masculino que, me parece ocupar o lugar de Deus, do poder, em suas imposições e condenações, através de suas análises, vai mostrando a ela que todo o medo e toda a culpa foram construídos pelo seu próprio comportamento. No sótão da cabana, ele encontra estudos para a tese dela, fotos de caça às bruxas, sobre o genocídio feminino e um caderno repleto de artigos e notas sobre temas misóginos, no qual repara uma escrita frenética e ilegível. Ele a revela que, durante os estudos de sua tese, ela passa a ver o caráter feminino como sendo inerente ao mal e condenado a ele.
Mostrando a ela suas falhas, é como se ele fosse o Deus da punição. Ela se revolta e o ataca, tira a roupa, deita sobre ele. Depois, esmaga seus testículos com um bloco de madeira. Ele fica inconsciente e ela o masturba até que ele goza e ejacula sangue. A fim de impedi-lo de fugir, ela perfura sua perna e pendura uma pesada pedra de afiar para que ele não se mova e fuja, jogando fora a chave usada para apertar o parafuso que prende a pedra. Depois que ele consegue fugir e se esconder, mesmo com a pedra pendurada na perna, ela se arrepende e acaba o levando novamente até a cabana. Neste meio, ela relembra a cena da morte do filho e se dá conta de ter o visto subindo na janela, quando transava. Ela, então, pega uma tesoura e corta o clitóris, num ato radical da autocastração. O homem consegue se soltar da pedra. Novamente ela se revolta contra ele e arremessa a tesoura que acerta as costas dele. Já no fim, ele pega a mulher pelo pescoço e a estrangula. Depois põe fogo no corpo dela. E vai embora da cabana. Na cena final, aparece ele andando pela floresta e várias mulheres com o rosto embaçado, caminhando também.
Podemos pensar no personagem feminino, lembrando o livro de Nietzsche, como sendo o Anticristo ou Anticristão, no sentido de tentar se por contrária ao mito do pegado original, que permeia toda da igreja cristã. Mesmo condenada ao pecado e se sentindo culpada, ela tenta se rebelar contra a esta imposição. O personagem masculino representa o homem que, durante toda a história da humanidade, ocupa o lugar do poder. Não é a toa que padres e sacerdotes são homens. O próprio substantivo Deus pertence ao gênero masculino.
O filme de Lars nos traz uma belíssima oportunidade de discutir os papéis do homem e da mulher, ainda mais diante de tanta violência. Notícias se espalham: casos Mércia, Elisa e tantos outros. O que pensar desta nota: "Máfias de narcotraficantes e gangues como a Mara Salvatrucha adotam a execução de mulheres como marca registrada. Apenas na Guatemala, o número de assassinatos desse tipo chegou a 534 em 2007.”
E desta: “Na América Central, porém, o que vem apresentando níveis epidêmicos é o número de assassinatos indiscriminados de mulheres por seus parceiros, parentes ou desconhecidos – o feminicídio. Segundo o estudo divulgado na semana passada, entre 2000 e 2007 os casos de genocídio feminino na Guatemala aumentaram 183%, em Honduras, 150% e em El Salvador, 111%. O aumento de crimes contra mulheres foi o dobro dos assassinatos de homens em todos esses países.
Pensemos sobre!

Mardê Lenny

3 comentários:

  1. Olá minha linda, sabe que sou sua fã, e agora aki te leio, e passo meu tempo te apereciando, ou seja apreciando seu coração e ele é mesmo muito lindo, obrigada pelo seu espaço!
    com carinho
    Hana

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  2. Wau Mardê! Sempre se superando!!!! Adoro teus post's. Grande Abraço
    Mell

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  3. Ei Moça, tudo bem com voce? passei por aqui esbarrei neste assunto Froydiano rss, so ele explica. Sendo amante dos filmes Holiday e 6 days 7 nights...confesso que deu ate vontade de assistir o 'O' ou 'AO' e quem sabe compartilharmos um pouco mais sobre o que passa na mente do mister Lars...mas desde ja deixo aqui algo que me fascina " Se ela é inferior porque tambem sao chamadas de colunas? Juninho, okay to do ficando velho JR.

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