23 de dezembro de 2011

Poema de natal




Para isso fomos feitos:

Para lembrar e ser lembrados


Para chorar e fazer chorar


Para enterrar os nossos mortos 


Por isso temos braços longos para os adeuses


Mãos para colher o que foi dado


Dedos para cavar a terra.


Assim será nossa vida:


Uma tarde sempre a esquecer


Uma estrela a se apagar na treva


Um caminho entre dois túmulos 



Por isso precisamos velar

Falar baixo, pisar leve, ver


A noite dormir em silêncio.


Não há muito o que dizer:


Uma canção sobre um berço


Um verso, talvez de amor


Uma prece por quem se vai 


Mas que essa hora não esqueça


E por ela os nossos corações


Se deixem, graves e simples.


Pois para isso fomos feitos:


Para a esperança no milagre


Para a participação da poesia


Para ver a face da morte 


De repente nunca mais esperaremos...


Hoje a noite é jovem; da morte, apenas


Nascemos, imensamente.



                           Vinícius de Moraes

Nenhum comentário:

Postar um comentário